Réplica: O fascínio e ilusão do carro autônomo (Sindepark-SP)

No último dia 21 de novembro, o Sindepark-SP lançou um artigo do consultor Jorge Hori no seu site que visava demonstrar que os carros autônomos não seriam uma grande ameaça ao mercado de estacionamentos privados. Mas será mesmo? Analisaremos alguns aspectos do artigo, visando fomentar esse debate sadio e importante para o nosso mercado. Logo, escrevi esta “réplica”, seguem meus comentários parágrafo a parágrafo do artigo original:

“…O carro autônomo é uma solução cara para um problema desimportante. É uma solução de luxo, para poucos. É um supérfluo, elevado pela mídia das empresas produtoras a um grande objeto de desejo. Será para os ricos. Interessa àqueles que não querem ficar estressados na direção do seu carro. Mas ficarão mais tempo parados no trânsito, porque vai aumentar a circulação de veículos…”

Os veículos autônomos vem para transformar a realidade da mobilidade urbana, isso é fato. Hoje, o custo de aquisição de um veículo assim é alto porque toda tecnologia está na mão de poucas empresas que tem desenvolvido pesquisas ao longo dos últimos anos, mas e quando essa tecnologia se popularizar? Quando ela for importada da China? Além do mais, jamais esse investimento será feito por pessoas físicas, pelo menos em um primeiro momento, mas sim por grandes empresas que visam reduzir os custos da sua frota e por empresas especializadas em transportes coletivos (como já o fazem).

Segundo o jornal The Guardian, a Uber, que é líder mundial em transporte coletivo, planeja investir na compra de 24 mil unidades de carros autônomos da Volvo já agora em 2019 (https://www.theguardian.com/technology/2017/nov/20/uber-volvo-suv-self-driving-future-business-ride-hailing-lyft-waymo), o que representa (muito) bem qual o direcionamento que seguirá o mercado.

Se levarmos em conta os valores praticados por esses aplicativos, que chegam a fração dos 20% do valor cobrado por um táxi tradicional, não pode-se dizer que é uma ferramenta “para os ricos”, as pessoas das classes baixa e média são as que mais utilizam este tipo de serviço, por motivos que vão desde a incapacidade financeira de adquirir um veículo até leis que inibam que essas pessoas utilizem seus veículos próprios em determinadas condições (como a Lei do álcool zero, por exemplo).

Uma pessoa de baixa classe, quando vai a um supermercado necessita de um transporte terceirizado, quando participa de um evento social também e o mesmo se repete ao buscar os filhos no colégio em dias chuvosos, ao frequentar uma casa noturna, etc.  Para aqueles de melhores condições econômicas, há várias alternativas entre o possível próprio desinteresse em cumprir as leis, até motoristas particulares, concluindo-se que de fato, acontece justamente ao contrário do narrado pelo autor do artigo.

“…Poderá ser uma circulação mais racional, com ganhos de segundos ou minutos, mas esses só serão relevantes quando todos os carros forem autônomos, com suporte na inteligência artificial. Tudo demorado e caro. Será rápido em laboratório e em testes. Mas a disseminação será longa, se continuada. Um cenário possível é que se restrinja a poucos veículos, como hoje já ocorre, com a circulação dos carros de luxo…”

A velocidade em que essa tecnologia se distribuirá será proporcional ao lucro das empresas que investem nesse mercado. Mesmo concordando que levará um bom tempo para chegarmos a 100% de veículos autônomos, acredito que a disseminação se dará primeiro em veículos populares, contrário ao citado pelo consultor do Sindepark, pois culturalmente, quem adquire um veículo de luxo, não leva em conta somente o aspecto prático, mas a cultura do veículo, o prazer e a realização pessoal de dirigir um veículo de luxo.

“…Com o carro autônomo, poderá haver uma redução da frota, mas sem redução da circulação. Ao contrário, haverá um aumento, como vem ocorrendo com a disseminação dos aplicativos de chamada. Os congestionamentos nas grandes cidades têm piorado. Mas afetará também os estacionamentos, que perderão demanda…”

Haverá redução da frota à longo prazo, se restituirmos patamares aceitáveis de criminalidade, e com isso, o retorno da cultura do transporte coletivo.

Hoje, a frota aumenta exponencialmente pela má qualidade do transporte coletivo, pela insegurança dos pedestres nos pontos e estações, não há qualquer pesquisa ou relação comprovada com “aplicativos de chamada”, todas pesquisas apontam para a criminalidade e a comodidade. Agora, imaginem quando houverem ônibus e metrôs autônomos que serão programados para não aceitarem passageiros além da sua capacidade, muitas pessoas deixarão de usar seus veículos particulares para economizarem utilizando esse tipo de transporte, com qualidade, como ocorre hoje mesmo na Europa, por exemplo.

“…Com o carro autônomo o executivo, chegando ao seu local de trabalho, poderá mandar o carro de volta à sua residência ou outro local e ordenar que ele só retorne para ir buscá-lo. Os de maior posse já fazem isso, com um motorista particular. Não é a principal demanda dos estacionamentos. O carro autônomo exerce uma grande fascinação sobre as pessoas, mas não representa ameaça significativa para a atividade de estacionamentos pagos…”

Há sim essa possibilidade de envio e pedido do veículo, mas não creio que vá ser aplicado desta forma. A tendência é o coletivo, eu uso… Você que está próximo e precisa se deslocar para outro local, usa. O custo de manutenção e queima de combustível para o trajeto sem tripulantes é o que vem sendo combatido por essas tecnologias, assim elas conseguem reduzir o custo geral do transporte per capita, deixando de perder dinheiro com trajetos sem tripulantes.

Com o crescimento do transporte coletivo através de aplicativos de transporte e transporte público autônomo, enfrentaremos uma ameaça real ao mercado de estacionamentos privados, e certamente a extinção deste mercado à longo prazo, o que é inerente em todos mercados que estão sendo modificados pelo advento da tecnologia e a natural evolução, mas nada que tenhamos que nos preocupar neste momento, ainda há tempo para explorar comercialmente este mercado e obter bons lucros.

 

Autor: Nataniel Kegles é consultor para gestão de pequenos e médios estacionamentos, sócio proprietário da PARKEER, empresa que produz software para gestão de estacionamentos.

Adaptado do artigo: O fascínio e ilusão do carro autônomo, de Jorge Hori – Sindepark – SP. Disponível em http://sindepark.com.br/parking-news/noticia/o-fascinio-e-ilusao-do-carro-autonomo-643, acesso em 28 de novembro de 2017.